Cartas do Terreno 9: Está a acontecer outra vez
Cartas do Terreno 9: Está a acontecer outra vez
De: Mohamad Hamdan - Engenheiro em Matemática, Praticante de Teatro, Praticante de Comunicação Não Violenta
Para: Colegas que trabalham em políticas culturais e de desenvolvimento, fundações e instituições culturais e organismos doadores
Prefácio
Escrevo esta carta enquanto o meu país – o Líbano – e a minha região estão sob ataque. Escrevo como forma de resistência, rodeado pelo som de drones, mísseis e bombardeamentos. Escrevo porque o que está a acontecer aqui não está isolado do que se está desenrolar a uma escala global maior. Aqui, é mais intenso, mais visível. O que vivemos e testemunhamos faz parte de um sistema mais vasto de controlo, dominação e opressão em todo o mundo.
Espero contribuir para a conversa sobre arte e cultura em tempos como estes, uma vez que estas continuam a ser fundamentais para o desenvolvimento humano.
Desejo também contribuir para um espaço de reflexão sobre como podemos praticar a arte e a cultura com clareza política e uma consciência mais profunda do poder. Nesta carta, movimento-me entre o pessoal e o coletivo – não para oferecer respostas definitivas, mas para iniciar o diálogo.
Queridas/os colegas,
Está a acontecer outra vez.
Nós — enquanto humanidade — estamos a testemunhar, em tempo real, a normalização do uso massivo da força como forma de governar as relações entre pessoas e nações.
Para além dos debates políticos.
Para além das posições sobre quem está certo ou quem está errado. Quem começou o quê.
Quem tem o direito de se defender.
A minha atenção vai para outro lugar.
Nós — enquanto humanidade — estamos a testemunhar a normalização do uso massivo da força como meio de dominação.
Está a acontecer outra vez.
O uso desproporcional da força está a ser justificado como razoável, necessário e legítimo.
À medida que os bombardeamentos em larga escala se tornam explicáveis, defensáveis e inevitáveis no discurso público, envolver-se em debates políticos polarizadores contribui para a normalização da violência massiva como instrumento legítimo de poder.
Está a acontecer outra vez.
Sou uma criança que nasceu em tempo de guerra. Uma criança que viveu durante a ocupação israelita. Uma criança que cresceu com a consciência de que algo habita as nuvens — capaz, a qualquer momento, de atacar a partir do céu escuro.
Antes mesmo de conseguir construir um significado, já tinha aprendido a desconfiar do céu.
Está a acontecer outra vez.
Tinha quatro anos quando Beirute foi bombardeada e sitiada. Quando os tanques israelitas se posicionaram no nosso bairro, a minha mãe disse-me: «Nunca olhes nos olhos dos soldados. Anda como se eles não existissem.» Ainda hoje ela me relembra desta história.
Está a acontecer outra vez.
Tinha dezassete anos durante um dos ataques massivos contra o Sul do Líbano. A escola parou. Lembro-me do dia em que mais de cem civis foram mortos por ataques israelitas enquanto se abrigavam na base da ONU em Qana. Lembro-me do peso no meu coração. Lembro-me de ter organizado uma manifestação com os meus colegas de turma perante esta monstruosidade.
Os nossos corpos tornaram-se resistência.
Está a acontecer outra vez.
Tinha vinte e oito anos quando foi lançada outra guerra sobre o Líbano. Estava a viver em Paris. Juntamente com outros libaneses — apesar das nossas diferenças políticas — organizámos um protesto com uma única mensagem partilhada: “Cessar-fogo agora. Nenhuma política é possível debaixo de fogo.”
Meses depois, organizámos um encontro público intitulado: “Israel: a política do poder ou o poder da política?”
Vinte anos depois, dou comigo a fazer exatamente a mesma pergunta.
Vinte anos depois, dou comigo enraizado na mesma clareza.
A nossa humanidade partilhada está a deslizar mais uma vez para a normalização da violência — apresentada como negociação, justificada como necessidade, e imposta como um caminho para a ordem. A violência torna-se a linguagem do poder. O instrumento através do qual o controlo é assegurado e a submissão é exigida.
As máscaras caíram. Os direitos humanos, o direito internacional, as convenções e os tratados são palavras abandonadas escritas cuidadosamente em papel.
Aqueles que escolherem ver verão.
Verão o que está a acontecer.
Verão a ocupação e a colonização por povoamento.
Verão a militarização.
Verão a concentração do lucro.
Verão o desmantelamento da nossa prática política.
Quando as coisas se tornam tão visíveis, o nosso posicionamento já não pode ser uma questão de opinião política; torna-se uma questão de responsabilidade pessoal e coletiva.
Para mim, a arte e a cultura são atos de responsabilidade pessoal e coletiva, enraizados numa determinação política. Não são um refúgio nem uma consolação.
A arte é uma ferramenta para questionar o poder, expor a injustiça e recusar a submissão a sistemas que desvalorizam a vida humana. Quando a guerra procura ditar o que é possível, a prática artística insiste no contrário: cria espaços de crítica, solidariedade e imaginação de alternativas.
A arte torna visível aquilo que o poder tenta apagar.
É por isso que faço o que faço.
Testemunhar sozinho não chega.
Viro-me, então, para o nosso campo artístico e cultural com as reflexões e as perguntas que me habitam hoje.
Se a violência se torna a linguagem da governação, o que é que isso revela sobre a direção que tomámos através das nossas políticas culturais e de desenvolvimento?
O que podemos imaginar a partir daqui?
E se este momento nos obrigar a questionar os próprios fundamentos das estruturas em que operamos?
E se o sistema que pensávamos estar a desafiar nos tiver confinado a um espaço seguro onde os nossos esforços podem ser neutralizados pelo que lhes convier ou apagados por mísseis e armas?
E se começarmos pela linguagem que usamos?
Falamos frequentemente sobre servir comunidades marginalizadas. Mas e se as pessoas percecionadas como estando à margem não forem aquelas que precisam de ser servidas, mas sim aquelas que veem o perigo?
Como os pássaros que voam na orla de um bando, sentem a tempestade antes de todos os outros; guiam o movimento do conjunto.
E se o nosso enfoque em “vozes sub-representadas” e “mudança de narrativas” não tiver alterado as estruturas de poder, mas simplesmente criado um belo museu de vozes?
Transformámos os desafios definidores do nosso tempo — a inteligência artificial, as alterações climáticas, os direitos humanos — em temas na moda para projetos inovadores, isolando-os em vez de confrontar as suas interligações e o que revelam sobre o poder e o controlo dentro das nossas estruturas coletivas?
Será que nos entregamos ao conforto?
Confundimos conforto com conveniência?
Dedicámos demasiado tempo a projetar a sustentabilidade como se fosse um ato eterno? E se a sustentabilidade não for permanência, mas o ato de escolher o que permanece e a prática da continuidade?
O que permanece agora é a determinação,
aprender com as margens,
suportar a destruição,
trabalhar com aqueles que veem com clareza,
pensar criticamente ao lado da beleza,
continuar a partir do que resta.
Quando a violência se torna a linguagem do poder, a neutralidade é uma posição. O silêncio é uma escolha.
Quando a arte e a cultura não desafiam os sistemas que organizam a morte, tornam-se parte deles.
Quando estou perto da morte, a dúvida desaparece.
Ouço o som.
Vejo o fumo.
E as minhas entranhas pressentem o cheiro.
Esta clareza vem do chão.
Sem palavras; sem pensamentos.
Está simplesmente no meu corpo, nos nossos corpos.
O corpo é o que resta.
E o que resta toma forma
através dos nossos espaços culturais,
através dos nossos projetos,
através das nossas ações;
como belos atos de desmantelamento de sistemas de dominação,
como belos atos de reconstrução da agência individual e coletiva,
sustentados na clareza,
na responsabilidade,
com amor.
*Estou profundamente grata a Lamia Abi Azar, Omar Abi Azar, Stephanie Dadour, Caroline Nanzer, Joelle Khoury Serrano, Junaid Sarieddine, Lara Tabet e Maya Zbib pelo seu feedback cuidadoso.
