Cartas do Terreno 9: Está a acontecer outra vez

Cartas do Terreno 9: Está a acontecer outra vez

De: Mohamad Hamdan - Engenheiro em Matemática, Praticante de Teatro, Praticante de Comunicação Não Violenta

Para: Colegas que trabalham em políticas culturais e de desenvolvimento, fundações e instituições culturais e organismos doadores


Prefácio

Escrevo esta carta enquanto o meu país – o Líbano – e a minha região estão sob ataque. Escrevo como forma de resistência, rodeado pelo som de drones, mísseis e bombardeamentos. Escrevo porque o que está a acontecer aqui não está isolado do que se está desenrolar a uma escala global maior. Aqui, é mais intenso, mais visível. O que vivemos e testemunhamos faz parte de um sistema mais vasto de controlo, dominação e opressão em todo o mundo.

Espero contribuir para a conversa sobre arte e cultura em tempos como estes, uma vez que estas continuam a ser fundamentais para o desenvolvimento humano.

Desejo também contribuir para um espaço de reflexão sobre como podemos praticar a arte e a cultura com clareza política e uma consciência mais profunda do poder. Nesta carta, movimento-me entre o pessoal e o coletivo – não para oferecer respostas definitivas, mas para iniciar o diálogo.



"Fotografia tirada em Nabatiyé, no sul do Líbano: a casa da Tia Afaf, danificada pelos bombardeamentos israelitas em 2024. A Tia Afaf foi morta num outro ataque aéreo israelita em Beirute, a 8 de abril de 2026, que reduziu o seu apartamento a cinzas.”



Queridas/os colegas,


Está a acontecer outra vez. 

Nós — enquanto humanidade — estamos a testemunhar, em tempo real, a normalização do uso massivo da força como forma de governar as relações entre pessoas e nações. 

Para além dos debates políticos.

Para além das posições sobre quem está certo ou quem está errado. Quem começou o quê. 

Quem tem o direito de se defender. 

A minha atenção vai para outro lugar. 

Nós — enquanto humanidade — estamos a testemunhar a normalização do uso massivo da força como meio de dominação.


Está a acontecer outra vez.

O uso desproporcional da força está a ser justificado como razoável, necessário e legítimo.

À medida que os bombardeamentos em larga escala se tornam explicáveis, defensáveis e inevitáveis no discurso público, envolver-se em debates políticos polarizadores contribui para a normalização da violência massiva como instrumento legítimo de poder.


Está a acontecer outra vez. 

Sou uma criança que nasceu em tempo de guerra. Uma criança que viveu durante a ocupação israelita. Uma criança que cresceu com a consciência de que algo habita as nuvens — capaz, a qualquer momento, de atacar a partir do céu escuro. 

Antes mesmo de conseguir construir um significado, já tinha aprendido a desconfiar do céu.


Está a acontecer outra vez. 

Tinha quatro anos quando Beirute foi bombardeada e sitiada. Quando os tanques israelitas se posicionaram no nosso bairro, a minha mãe disse-me: «Nunca olhes nos olhos dos soldados. Anda como se eles não existissem.» Ainda hoje ela me relembra desta história.


Está a acontecer outra vez. 

Tinha dezassete anos durante um dos ataques massivos contra o Sul do Líbano. A escola parou. Lembro-me do dia em que mais de cem civis foram mortos por ataques israelitas enquanto se abrigavam na base da ONU em Qana. Lembro-me do peso no meu coração. Lembro-me de ter organizado uma manifestação com os meus colegas de turma perante esta monstruosidade. 

Os nossos corpos tornaram-se resistência.


Está a acontecer outra vez. 

Tinha vinte e oito anos quando foi lançada outra guerra sobre o Líbano. Estava a viver em Paris. Juntamente com outros libaneses — apesar das nossas diferenças políticas — organizámos um protesto com uma única mensagem partilhada: “Cessar-fogo agora. Nenhuma política é possível debaixo de fogo.” 

Meses depois, organizámos um encontro público intitulado: “Israel: a política do poder ou o poder da política?”


Vinte anos depois, dou comigo a fazer exatamente a mesma pergunta. 

Vinte anos depois, dou comigo enraizado na mesma clareza.


A nossa humanidade partilhada está a deslizar mais uma vez para a normalização da violência — apresentada como negociação, justificada como necessidade, e imposta como um caminho para a ordem. A violência torna-se a linguagem do poder. O instrumento através do qual o controlo é assegurado e a submissão é exigida. 


As máscaras caíram. Os direitos humanos, o direito internacional, as convenções e os tratados são palavras abandonadas escritas cuidadosamente em papel.


Aqueles que escolherem ver verão. 

Verão o que está a acontecer. 

Verão a ocupação e a colonização por povoamento. 

Verão a militarização. 

Verão a concentração do lucro. 

Verão o desmantelamento da nossa prática política.

Quando as coisas se tornam tão visíveis, o nosso posicionamento já não pode ser uma questão de opinião política; torna-se uma questão de responsabilidade pessoal e coletiva.

Para mim, a arte e a cultura são atos de responsabilidade pessoal e coletiva, enraizados numa determinação política. Não são um refúgio nem uma consolação. 

A arte é uma ferramenta para questionar o poder, expor a injustiça e recusar a submissão a sistemas que desvalorizam a vida humana. Quando a guerra procura ditar o que é possível, a prática artística insiste no contrário: cria espaços de crítica, solidariedade e imaginação de alternativas.

A arte torna visível aquilo que o poder tenta apagar. 

É por isso que faço o que faço.

Testemunhar sozinho não chega. 

Viro-me, então, para o nosso campo artístico e cultural com as reflexões e as perguntas que me habitam hoje.

Se a violência se torna a linguagem da governação, o que é que isso revela sobre a direção que tomámos através das nossas políticas culturais e de desenvolvimento?

O que podemos imaginar a partir daqui?

E se este momento nos obrigar a questionar os próprios fundamentos das estruturas em que operamos?

E se o sistema que pensávamos estar a desafiar nos tiver confinado a um espaço seguro onde os nossos esforços podem ser neutralizados pelo que lhes convier ou apagados por mísseis e armas?


E se começarmos pela linguagem que usamos?


Falamos frequentemente sobre servir comunidades marginalizadas. Mas e se as pessoas percecionadas como estando à margem não forem aquelas que precisam de ser servidas, mas sim aquelas que veem o perigo? 


Como os pássaros que voam na orla de um bando, sentem a tempestade antes de todos os outros; guiam o movimento do conjunto.


E se o nosso enfoque em “vozes sub-representadas” e “mudança de narrativas” não tiver alterado as estruturas de poder, mas simplesmente criado um belo museu de vozes?


Transformámos os desafios definidores do nosso tempo — a inteligência artificial, as alterações climáticas, os direitos humanos — em temas na moda para projetos inovadores, isolando-os em vez de confrontar as suas interligações e o que revelam sobre o poder e o controlo dentro das nossas estruturas coletivas?


Será que nos entregamos ao conforto? 


Confundimos conforto com conveniência?


Dedicámos demasiado tempo a projetar a sustentabilidade como se fosse um ato eterno? E se a sustentabilidade não for permanência, mas o ato de escolher o que permanece e a prática da continuidade?


O que permanece agora é a determinação, 

aprender com as margens, 

suportar a destruição, 

trabalhar com aqueles que veem com clareza, 

pensar criticamente ao lado da beleza, 

continuar a partir do que resta.

Quando a violência se torna a linguagem do poder, a neutralidade é uma posição. O silêncio é uma escolha. 

Quando a arte e a cultura não desafiam os sistemas que organizam a morte, tornam-se parte deles.


Quando estou perto da morte, a dúvida desaparece. 

Ouço o som. 

Vejo o fumo.

 E as minhas entranhas pressentem o cheiro. 

Esta clareza vem do chão. 

Sem palavras; sem pensamentos.

Está simplesmente no meu corpo, nos nossos corpos. 

O corpo é o que resta. 

E o que resta toma forma 

através dos nossos espaços culturais, 

através dos nossos projetos, 

através das nossas ações; 

como belos atos de desmantelamento de sistemas de dominação, 

como belos atos de reconstrução da agência individual e coletiva, 

sustentados na clareza, 

na responsabilidade, 

com amor.


*Estou profundamente grata a Lamia Abi Azar, Omar Abi Azar, Stephanie Dadour, Caroline Nanzer, Joelle Khoury Serrano, Junaid Sarieddine, Lara Tabet e Maya Zbib pelo seu feedback cuidadoso.

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